Dia da Mãe sem Mãe (experiência “Plutónica“)

É provável que provoque algumas lágrimas naqueles que comigo partilham a experiência de ser órfão de mãe e ouvirem a música abaixo … é a letra, é o timbre, é a emoção com que o Zeca Afonso a canta. Toda esta mistura é um intenso e concentrado shot que nos faz viajar para um tempo memorável que queremos agarrar de novo, mas que se cruza com a realidade presente e dura onde o passado já não consegue coabitar. É preciso coragem para o beber!

Há algum tempo atrás sempre que ouvia esta música chorava desalmadamente, agora choro silenciosamente. São os sinais do tempo, mas há feridas impossíveis de curar completamente, reaparecem ciclicamente, ora mais pequenas ora maiores, variando em função das experiências do momento presente. Se nos sentimos seguros e com as nossas necessidades emocionais preenchidas (lado Lunar satisfeito), essas feridas reapareçam mais pequenas, mas se estamos mais vulneráveis, precisando de um colo (lado Lunar carente), essas feridas reaparecem de forma mais profunda.

Dia da mãe para quem não tem mãe é sempre um dia em que se reabre uma ferida.

Pergunto-me por que oiço esta música?! Porque é que há um lado em mim tipo “masoquista” que consegue tirar algum prazer/cura de ouvir esta música, repetitivamente, num circuito fechado, volta o disco e toca o mesmo, onde não há espaço para mais nada além de mim e desta tristeza de ser “pobre” de mãe.
É fácil perceber onde esta minha característica tem correspondência na linguagem astrológica. É na configuração do meu Plutão, o “Deus do submundo”. Ele está conjunto ao meu Ascendente, manifesta-se em toda a minha forma de levar a vida, muitas vezes no limite das emoções, mas que ao mesmo tempo me motiva a procurar o sentido/cura por trás de cada experiência de dor profunda. É o que me faz percecionar o mundo invisível onde reside a razão/sentido de muita coisa incompreensível. E por isso hoje dou por mim a falar dos processos de Plutão, processos que me dizem muito e que todos acabamos por passar e ter que gerir. São os processos que ocorrem no contexto das experiências de vida em que em alguma(s) área(s) perdemos o “chão”. Não é só na perda/doença de entes queridos, se perdermos o emprego, se passarmos um divórcio doloroso, o lidar com uma doença grave, enfim os cenários são vários e terão em comum sentimentos como desespero, medos/inseguranças vividas de forma cumpulsiva, choque. Todas estas experiências podem desencadear processos de Plutão, à luz da Astrologia.

Plutão

A energia de Plutão manifesta-se sempre de forma profunda e extremada , não há meio-termo.
Se Marte representa a nossa força de vontade, Plutão é a vontade da alma em busca de saltos quânticos no seu processo evolutivo.
Simboliza a destruição/morte seguida de reconstrução/transformação, a capacidade de emergir das cinzas. É também a energia magnética que tanto é capaz de atrair como repelir, matar ou curar.

Quem sobrevive a processos de Plutão, passa a carregar dentro de si uma reserva de força interior poderosa que lhe será determinante em situações seguintes e que pode e deve ser usada na cura de outros que passem por perdas idênticas. Só pode curar aquele que se conseguiu curar a si próprio. Não é raro ver mães que perderam os seus filhos (a pior dor de todas, a dor que não tem nome) a dar sentido às suas vidas, apoiando outras mães que passam pelo mesmo. Esta é talvez a forma mais criativa e curativa de dar expressão à experiência passada, é a fase final do processo, a fase em que uma nova ordem emerge na vida da pessoa.

Quando oiço esta música, revivo o meu processo de perda da minha mãe. É a minha catarse emocional. Primeiro vêm as memórias do passado vivido e a dor de não poder voltar atrás. Tudo é absorvido para um buraco negro de total ausência de Luz. Depois “sustento a respiração”, sinto o que há para sentir, rendendo-me a essa dor, deixo que ela tome posse de mim. Sem resistência, dou espaço para que uma nova força cresça e transmute a dor em algo maior. É o amor vivido agora de uma forma diferente, é o viver com a certeza que embora ausente fisicamente ela ainda me acompanha.

Processos Plutónicos

Se há um lado terapêutico fascinante na astrologia, este prende-se com a sua forma de descrever estes processos plutónicos e de determinar caso a caso a sua duração.
Saber a duração prevista para uma experiência de dor quando se está a viver o processo, é algo que ajuda muito, é a Luz ao fundo do Túnel. Para quem é cético e não conhece astrologia isto parece descabido mas é possível.

Na minha perspetiva pessoal um processo plutónico passa essencialmente por três fases:

  1. Fase da Destruição/Controlo: Algo morreu ou está a morrer aos poucos. É o desencadear de um processo destrutivo. Nesta fase há um desejo de controlar, de tentar agarrar o que ainda resta. Pode existir uma negação do que se está a viver que nada é mais do que tentar controlar a vida e mantê-la como ela existe. Existe ainda muita adrenalina, muita resistência, muita concentração de energia, o ego ainda está a comandar e sobrepõe-se à dor ou tenta camuflá-la.
  2. Fase da Rendição/Regeneração: A dor supera o ego. É a fase em que já nada há a perder, nada há para controlar, a energia esgotou-se. É a rendição total ao sofrimento. A vida entra num processo automático de sobrevivência. Não há ego. Estamos no nosso ponto de maior vulnerabilidade mas é quando nos encontramos recetivos a algo maior. É a total rendição que abre espaço para a fase seguinte de cura, porque há um apelo interior para que algo maior nos venha socorrer e dar um novo sentido à vida, para que esta possa continuar com um novo chão.
  3. Fase da Transformação/Cura: A nova ordem começa a ganhar estrutura, a energia renasce assente numa nova base. Encontrou-se um novo sentido para a vida ou uma nova direção. Sentimo-nos mais fortes, afinal renascemos das cinzas. Transmutámos a dor, dêmos-lhe uma nova orientação. Estamos agora preparados para ajudar na cura dos outros.  O mundo pede por isso, é uma bênção.

O maior “drama” dos processos de plutão é que terão sempre que ser processos solitários, são as travessias do deserto…não há receitas fáceis para lidar com eles.
O aspeto fascinante é que qualquer destruição vem sempre acompanhada de um processo de reconstrução e essa é sempre a esperança e o ponto onde nos podemos agarrar. Não é uma construção qualquer, é mais do que isso, é uma nova vida com um novo sentido.

Quem diria eu que ao som do Zeca Afonso e a propósito do dia da Mãe haveria de falar de Plutão …. Mas faz todo o sentido. Zeca Afonso foi um grande ativista, um adepto/impulsionador da transformação. E a minha mãe amada, ela era uma Leoa com Plutão junto ao seu Sol. Poderosa como só ela! A sua criatividade era dramática, plutónica, como o verso abaixo escrito por ela.

Love you!

Os meus pecados

Voa alto o meu pensamento
Erguido ao Céu e para Deus.
E, na Paz e recolhimento da alma,
Penso nos pecados meus!

Se é pecado errar por Amor,
Numa prece só a ti dirigida.
Peço-te meus Deus mil perdões
Perdoa, se assim pequei na Vida.

Tantas foram as desilusões
Longos foram os caminhos
Nesta árdua e pesada caminhada
Percorrida cheia de espinhos…

Sinto minha alma mutilada
Aprisionado estás meu coração
Aguarda aquela voz que ao longe vem
Libertar-te desta prisão

Nesse dia glorioso
E num hino de agradecimento à vida
Abraçarei o Sol, o Mar, as Ondas
E para sempre será a despedida…

(Benvinda, mãe amada)

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obrigada pela partilha do meu trabalho |  Mónica Teixeira | Serviços

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